domingo, 23 de novembro de 2014

Abismo

Atenção flutuante. Olhar parado. Vidrado. As coisas passam ao seu redor, mas seu peito continua vazio. Não consegue se sentir completo. Não mais. É como uma árvore cortada ao meio: ela já não crescerá. Não mais. Outras árvores, flores e plantas podem crescer ao seu redor, mas a árvore não. Ela continuará ali. Parada. Novos pássaros, novos animais e espécies podem agora viver ao seu entorno, mas a árvore não sentirá mais nada. Ainda há raiz, mas não há estímulo. Não há folhas. Não há fotossíntese. Vive por viver, porque morta, ela talvez já esteja.
Cícero acordou. Respirou fundo, olhou para os lados. Não se sentia bem. Ultimamente acordava assim, angustiado. Olhou para o relógio. Estava atrasado. Mesmo assim, levantou com calma e foi ao banheiro. Banho. Comida. Escovou os dentes. Estava pronto. Seu humor havia melhorado, estava ficando acostumado com a oscilação no decorrer do dia. Saiu de casa. Trabalho. Reclamaram que ele estava apático, mas Cícero já se sentia assim há um tempo. “Agora é perceptível?”, se questionou. Estava acostumado a guardar seus problemas pra si. Era melhor. Poupava falatório e opiniões que ele não queria ouvir. No entanto, o silêncio estava se tornando uma difícil opção. Por vezes queria gritar, colocar pra fora. Mas, mais uma vez, decidiu calar. Olhou para o relógio. 18h. Hora de voltar pra casa. Pegou seu carro, ligou o som e veio dirigindo tranquilamente. De repente, teve uma ideia. Pensou por 10 minutos. Queria se limpar. Desestressar. Acabar com aquele sofrimento, pelo menos por alguns instantes. Olhou sua carteira, pegou seu dinheiro e entrou no primeiro cabaré que viu. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fuçou na caixa vazia,
Achou o que não queria,
Se arrependeu no mesmo dia.

Pré-consciente

Eu queria escrever algo
Quase que premeditado
Mas as ideias vão mudando
E tudo vai ficando
Por baixo do pano.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Globalização

A pé?
A pressa
Apressado.

Noite alta

Pediu pra que ela contasse
Um.
Não conseguia passar dali
O tesão corroía o seu corpo
Dois.                         Ela com
as pernas abertas
Três.                         Ele com
a cabeça entre elas
Ela gemendo de prazer
Qua-tr-o.                  Gozou

domingo, 24 de agosto de 2014

Madrugada

Bebeu uma cerveja e logo veio a vontade de fumar um cigarro. Não sabia porque, mas aquilo caía bem. Não achava o gosto atraente, mas a postura adquirida enquanto fumava era reconfortante. Autoridade, potência, plenitude, segurança. Sentiu tudo isso em uma só tragada. Queria mais. Não demorou muito e o seu pulmão reclamou. Tossiu.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

sábado, 16 de agosto de 2014

E de repente sobe ao peito uma alegria intensa. Ela não tem explicação e quem a sente não procurar saber de onde veio. E aquilo vai passando por suas veias, artérias, ossos, cartilagens e logo ocupa todo o corpo, sendo impossível se controlar, tendo que se remexer para contê-la. E aliviado respira: está vivo.

Paixão

Queria comprar sua alforria,
Mas a escravidão ainda não havia acabado.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Amizade

Por muito tempo andei sozinho
Mas agora encontrei uma estadia
Lugar tranquilo
É como se fosse certeiro
Como que estou seguro aqui

Encontrar uma morada
Ou uma pousada
Ou seja lá o que for
O importante é que aqui eu me sento seguro
E a incerteza e insegurança não podem me invadir.
Minha calma atrapalha a continuação
A tranquilidade me faz parar
Preso ao tempo
Preso às circunstâncias

A atitude que faz falta
A falta de atitude que cansa
O esperar e não receber nada
A insegurança que barra

Não há ação,
Mas há pensamento

Não há tato,
Mas há imaginação

Porém, nesse caso, tanta reflexão não serve de nada.

Quem escreve não sou eu

Quem escreve não sou eu. Sou eu e não sou eu. A mão que segura a caneta é minha, das palavras não tenho certeza. O papel é meu, mas quem escreve não sou eu. No momento que escrevo, tenho mais certeza que quem escreve não sou eu. Sou eu e não sou eu. Quem escreve não sou eu.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Fluxo

Lá estava ele sentado, pensando em sei lá o quê. De repente, as palavras vieram. Ele, acomodado no canto da sala, disse um "ah, agora não, por favor, outra hora". Coitado. Ingenuidade dele. Acreditava que elas voltariam, que tinha poder sobre elas. Mas não. Ingenuidade dele. E elas se foram, se perderam num amontoado de outras palavras, se misturaram: tudo embaralhado - quebra-cabeça. Mas ele continuou ali, sentando, acreditando que elas voltariam, mal sabendo ele que as palavras já tinham ido embora.

Sobre "A casa dos budas ditosos"

Uma mulher. Uma casa. E os budas ditosos. Tudo é figura de linguagem. Menos a mulher. E a casa. O atraso, o atraso. Ela, em sua figura que exalava feminilidade, criticava-os. “Não! Vocês estão errados! Parem!”. Mas poucos a ouviram. Seletos. Como sempre, os seletos. “Todos deveriam ler esse livro”, ela disse. “Todos devem ler esse livro”, quem leu disse. O que seria do mundo se não fossem os seletos? Aqueles que fogem do habitual, procuram outros meios, outras formas, discutem, criticam, falam. “Hipocrisia, hipocrisia!”. Sim, e era mesmo. Na verdade, ainda é. Ela jogou no ventilador tudo que eles gostariam de fazer, mas não fazem. Disse tudo que eles têm medo de dizer. Fez tudo que eles não tiveram coragem de fazer. Assim, jogou um explosivo, que atingiu os seletos. Mais uma vez, os seletos. E se os conceitos de seletos e massa fossem inversos? Se na massa houvesse mais seletos? E vice-versa? Ah, sei lá. O atraso, o atraso. Se fosse pra definir sua vida, usaria apenas uma palavra: sexo. Libido, desejo, corpo. Liberdade. Sim, ela faria isso. Pena que ela morrerá logo, há um aneurisma impedindo sua continuidade mundana. Mas ela disse. Ela fez. Ela realmente fez. Se morresse hoje, morreria feliz. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ciclo

Solidão. Era o que ela sentia no momento. Olhava os rostos a sua volta, mas não os via. Estava sozinha, sentia-se sozinha. Queria sair para respirar novos ares, porém logo se dava conta da realidade: tinha que enfrentá-la. Logo, inspirou profundamente tentando puxar com toda força o ar que restava. Conseguiu. Sentiu-se melhor, mas por mais quanto tempo?

Inércia

Um gole de coragem,
Uma queda de um penhasco,
Um sopro bem forte,
Pra me empurrar pros teus braços.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Modernidade líquida

O tédio e o ócio também podem ser aproveitados. Tudo bem que refletir demais faz você pensar sobre coisas que não queria, que causam incômodo. Mas quem disse que conhecer a si mesmo é tempo perdido? Quem disse que seria fácil? Talvez seja por isso que o mundo está tão corrido, tão instável, tão fugaz. Pois assim as pessoas se ocupam, o tédio e o ócio não aparecem e elas não enfrentam a difícil missão de saber quem se é.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Busco concentração, mas só encontro ansiedade. É incrível quando a gente se dá conta de que, ao contrário do que diz a autoajuda, não conseguimos controlar nossos sentimentos. Eles existem e eles simplesmente vêm. Simplesmente são. E quando você aprende a conviver com isso, sua vida se torna mais leve. Então, por favor, se você conseguir chegar a tal ponto, avise.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Acordou com fome. Devia ter uns quatro anos. Saiu da cama e foi até o quarto dos pais. Acordou sua mãe. Não demorou muito e ela desceu as escadas com o pequeno. Fez um café, foi até o armário da cozinha e pegou um pacote de biscoitos - o favorito dele. O menino sentou na cadeira e sua mãe sentou ao seu lado. O garotinho segurou sua xícara, pensou no papai dormindo e olhou ao redor. Para ele, aquilo bastava. Seu mundo estava completo.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Finitude

Somos um pedaço de nada,
Um pouco de tudo,
Um bocado de cada,
Um porto seguro.

O dom da invisibilidade

"As vantagens de ser invisível" é um daqueles livros e filmes que ficam guardados na memória. O modo como a história é contada é cativante. Um drama que consegue ser leve e pesado ao mesmo tempo, além de inteligente, bonito e sensível. A transição entre adolescência-juventude-mundo adulto é tão bem feita que surpreende. Parece que foi feito sob medida para nós (ou para mim). Sim, quero ouvir as músicas indicadas e ler os livros indicados. Sim, queria ter amigos como Sam e Patrick. Sim, queria viver aquela história. E sim, em diversos momentos, quis ser Charlie. Enfim, sim, eu queria ser invisível.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não podia contar aquilo a ninguém. Não confiava em ninguém. Nem em si. Mas como precisava, confiou no papel e na caneta. Escreveu o seu grande pecado. E a partir daquele momento, aquilo virou seu vício.